29.4.08

Fantasia no Sítio do Pica-Pau Amarelo




FANTASIA1 (Por Monteiro Lobato)

Fantasia deixou-me estarrecido2. É a expressão. Estarrecido. E embaraçado para definir. Tudo tão novo, tudo tão inédito, que o vocabulário crítico usual mostra-se impotente. Disney é um tipo novo de gênio e sua arte é uma arte total e absolutamente nova, jamais prevista nem pelas mais delirantes imaginações. Até o aparecimento de Disney, o cinema não passava duma conjugação do teatro com a fotografia. Era uma representação teatral fotografada em todos os seus movimentos, cores e sons. Disney criou a grande coisa nova; a conjugação da fotografia com a imaginação.

O desenho genial de Disney permite que todas as criações da imaginação possam ser fotografadas e projetadas com a riqueza dos sonhos. Uma arte, pois, absolutamente nova e jamais prevista.

Tudo quanto é absolutamente novo desnorteia a rotina do nosso cérebro. Ficamos sem palavras para julgar. O vocabulário humano é um conjunto de convenções que refletem experiências muito repetidas. Quando uma experiência sensorial totalmente nova nos defronta, o velho vocabulário existente mostra-se necessariamente inadequado.

Diante da dança dos cogumelos chineses, das manobras da fada do orvalho, da tradução em desenho do pensamento musical dum Stravinski ou dum Beethoven, da prodigiosa sátira à "Dança das Horas" de Ponchielli, do jogo de dois extremos, como a bolha e o elefante, da disneyzação da família de Pégaso e do clã dos centauros, a atitude do espectador torna-se cômica. Temos que abrir a boca e conservar-nos mudos. Tudo quanto tentarmos dizer com as convencionais e velhas palavras da admiração torna-se grotesco.

Um meu vizinho de poltrona tentou comentar o anjinho que cerrou as cortinas quando o casal de centauros amorosos se recolheu para o amor - o anjinho de costas cujo traseirinho nu foi virando coração - e tive de pedir-lhe silêncio.

Não fale.

Falar as velhas palavras diante de tal mimo de criação artística é quebrar grosseiramente algo prodigiosamente lindo, é furar com ponta de
prego enferrujado uma irisada bolha de sabão.

Não fale. Não comente. Não conspurque. Limite-se a extasiar-se. Diante de "disnéas" como o do elefante atrapalhado com a bolha, do anjinho que transforma nádegas em coração, da peixinha que se mantém de rosto impassível de tão consciente da prodigiosa beleza da sua dança aquática, do enlace de caudas quando a mimosa centaura se aninha no peito do seu centauro amoroso, falar é profanar.

Walt Disney é a suprema compensação dos horrores que a guerra está trazendo para a humanidade. Há a guerra, sim. Há o bombardeio aéreo às cegas. Há o estraçoamento dos inocentes. Há o inferno. Mas a humanidade salva-se produzindo neste momento trágico a altíssima compensação dum Disney, o Grande Criador.

Ah, se fosse possível um novo fiat! Recriar o mundo! Com o material que a natureza nos fornece produzir um mundo novo, formas novas de vida - e se fosse Walt Disney o encarregado da transmutação! Que suprema, que prodigiosamente bela uma nova Criação Cósmica assinada pela mais alta expressão do gênio humano - Walt Disney!

Inania verba... Que impotência a nossa ao tentar dizer de Disney com esta coisa grosseira que é a palavra escrita!

Nós, gente de hoje, somos trogloditas da Pedra Lascada diante dessa criatura que nos entremostra maravilhas dum ainda remoto futuro.

Disney, Disney, os trogloditas te saúdam.

Folha da Noite, 12/7/1948

1 Publicado pouco após a morte do autor, esse texto vinha precedido de uma nota, esclarecendo que "deve ter sido redigido em setembro de 1941", supostamente para o número 5 da revista Clima, dedicado "ao estudo e à crítica do grande filme de Walt Disney", com trabalhos de Oswald de Andrade e Sergio Milliet, entre outros. Lobato não chegou a entregar seu artigo para o editor da revista, Lourival Gomes Machado. Sua publicação deve-se a Edgar Cavalheiro, "herdeiro de todo o arquivo de Lobato" e seu futuro biógrafo.
2 Fantasia, de 1940, foi o terceiro desenho animado de longa-metragem de Walt Disney (1901-66), depois de Branca de Neve e os Sete Anões (1937) e Pinóquio (1939). Na seqüência viriam Dumbo (1941) e Bambi (1942).

Minha crítica à crítica:
Adoro Monteiro Lobato, e adoro Fantasia. Teria me chocado uma crítica que falasse mal de Fantasia, mas sou obrigado a discordar largamente de Monteiro Lobato. Primeiro que a animação não é é invenção de Disney nem propriedade dele, além disso o cinema já tinha se diferenciado do teatro fazia tempos, vide Einseinstein e a montagem. Segundo que ao Disney cabe somente o crédito de ter reunido os recursos e a equipe, esta sim responsável pela autoria e arte de Fantasia. O filme realmente em certas partes é descabidamente moralista e maniqueista e mesmo assim é maravilhosos. Terceiro, a história deste tal de Disney ainda deverá ser contada direito, mas sabe-se do seu envolvimento com o partido nazista, depois com a propaganda de guerra americana, com a política da boa vizinhança e com o macartismo. Sabe-se que por anos ele escondeu o Carl Barx, verdadeiro criador do Pato Donald e família, dizem que roubou o Mickey (o camundongo que virou rato), suas histórias difundiam conceitos machistas, racistas, e do new deal, entre outras coisas. Ele está congelado, será que um dia poderá ser acordado e julgado pelos seus crimes? Além disso, a melhor crítica já feita ao filme é outro filme Allegro non Troppo" de Bruno Bozzeto. vejam um trecho:




Nenhum comentário: